Santos e Barça: como é bom o sono dogmático (ou o estranho caso do sonho não realizado)
São exatamente 7:30 da
manhã. Caprichosamente. Nem um minuto a
mais nem um minuto a menos. Assim haveria de ser, metódico, como sempre. Ainda
mais hoje um dia especial em minha vida, em dias assim eu capricho nos detalhes.
Hoje é 18 de dezembro de 2011.
Minha
família preocupada com compras de final de ano e com a decisão de quem cederia
a casa para a ceia de Natal e para a festa de Reveillon. Mas eu não. Eu só
queria saber de um evento que ocorreria dentro de uma hora. Muitas decisões a
serem tomadas e eu solenemente ignorava
cada uma delas. Isso tudo por que finalmente eu veria Barcelona e Santos disputando um campeonato mundial.
Meu
discurso estava pronto desde o inicio de agosto. “Esses times europeus não
jogam nada!” “Venham disputar um Brasileirão para ver se duram um ano! “ “Vão
ser rebaixados logo de cara! “ Ou ainda: “esse Messi é um peladeiro, pipocou toda vez que a Argentina precisou
dele...” Enfim! Cornetei o Barcelona durante quatro meses.
Obviamente
eu não cogitava uma outra final que não fosse Santos e Barça. Um frio na barriga
terrível!!! Omeprazol virou Halls... Afinal era a primeira final de mundial que
eu estava vendo. Penso nos Grandes Ídolos da história do Clube. Pelé,
Pepe, Coutinho, Zito... tanta gente
boa responsável pelo Bi-Campeonato agora representada por esse time de Neymar,
Ganso, Arouca, Rafael, Léo, Elano... Motivos para êxtase não faltam.
Tomo um
café reforçado, grandes emoções me aguardam e devo estar devidamente alimentado
para isso.
Já são 8:10, meu pai reclama da demora, mostra a mão gelada e reclama do comentarista,
dizendo que ele está falando muita bobagem. Este é o clima minutos antes do
jogo!
Apita o
árbitro: o Santos já começa a tocar a bola como sempre fez. Rápido,
envolvente. O Barça troca olhares. O time está assustado com o ímpeto do clube brasileiro
que foi considerado uma zebra pela crítica européia na disputa dessa final. Nada disso me surpreende, eu já havia
falado que os europeus eram peladeiros...
O time
catalão mal passa da intermediaria, uma triangulação conduzida por Messi em um
ou outro instante, um tímido toque de bola no meio de campo, mas o domínio é
santista. E dá-lhe Ganso com seu “toque de Gerson”! Insiste até conseguir
encaixar uma bola nos pés de Neymar. Aí meu amigo, é na caixa! Gol do Peixe!!!
Mal podem esperar meus amigos
Palmeirenses e Corinthianos que nunca ganharam um mundial. A vontade é de
ligar para cada um deles e dizer : Chuuuuuuuuupa! Mas não, pensei: - Os caras
não são bobos, vai que eles empatam... Lei de Murphy! Não é que na euforia o
time do Santos deixou a zaga desguarnecida e cedeu o empate?!?! A torcida lamenta a injustiça do lance. Mas
tudo bem, o jogo está no começo. Só temos 30 minutos jogados.
O Barcelona
rola a bola no seu campo de defesa, nitidamente interessado em arrastar o
empate para a segunda etapa de jogo. Depois de tantas goleadas nos campeonatos
europeus, não sabiam como agir diante da magia do futebol brasileiro. Mas o
Santos marca fortemente a saída do time e os espanhóis começam a perder a
cabeça. Puyol o grande zagueiro,
estapeia Borges em uma disputa na grande área , após escanteio. Confusão na
área: empurra-empurra, o assistente vem e fala algo ao ouvido do árbitro que
saca o cartão amarelo e o apresenta para o cabeludo.
Para alegria de boa parte
da população tupiniquim, pênalti em favor do alvinegro. Neymar se
prepara, o suor pinga de sua face, nitidamente tenso, o jovem deve estar vendo
um filme passar em sua cabeça. Toma distancia mediana e parte. Dá uma leve
parada e toca firme, rente à trave esquerda. Impossível defender: 2x1
Peixe!
Messi tenta animar a torcida que
começa a sacolejar suas bandeiras, balões e todas estas traquitanas. Mas
já é tarde para qualquer reação, acaba o primeiro tempo.
Visivel abatimento para os
atletas que trajam grená e azul. Nenhum deles concede entrevista antes de
chegar aos vestiários. Os alvinegros mal conseguem disfarçar sua alegria. Mas
fingem-se concentrados, compenetrados. Argumentam que o único segredo foi
cumprir com o planejamento elaborado pela diretoria e comissão técnica.
Discurso bem treinado e combinado entre eles. Nada que pudesse dar armas para o
adversário se recuperar.
Voltamos à partida: o ritmo é
outro. O Santos cadencia as jogadas e o Barcelona cumpre cada uma de minhas
profecias. Surge a dúvida se é o adversário inacreditavelmente frágil ou se estamos vendo o
Peixe em um de seus dias mais
inspirados. Não temos respostas mas sim um susto: Iniesta toca para Xavi que
chuta de fora da área e carimba a trave de Rafael.
Parece que o lance veio alertar o
time santista de que nada está resolvido e que se faz necessário correr em campo
ainda. Neste momento contamos com o talento de Elano que parte pela direita,
inverte com Neymar que arranca em tabela rápida com Ganso e com a bola nos pés novamente deixa Borges diante do gol. O resultado
evidente para tal displicência espanhola
só poderia ser um fuzil rasgando a rede.
Meus olhos
não crêem no que vêem. 3x1 para o meu time que sacramenta o terceiro título
mundial e se coloca certamente como maior clube da história ao lado de Real
Madrid. O principal adversário do Barça. Vitória dupla.
Aos gritos
de olé, esvaem-se os 5 minutos finais de partida. Santos Campeão Mundial Interclubes! Aconteceu o que eu já sabia e os pernas de pau voltam para casa
pensando em quantos brasileiros, ou ainda, quantos santistas seriam
despatriados para garantir mais alguns anos de marketing ao futebol das terras
estrangeiras.
Neymar é
rei. Emissoras lamentam o fato dele não estar entre os que disputam o título de
melhor do mundo. Galvão Bueno que não havia transmitido o jogo, dá um
depoimento emocionado sobre a garra e a determinação desse time que ele viu se
formar de perto...
De repente
toca o despertador. São 8:10 e eu estava sonhando com o jogo! Tomo um café
correndo. Faltam poucos minutos para a final. E a verdadeira história vocês já
conhecem...
Lucas Lima (@philucas)